O MEU CONTO DE NATAL

"Olhei para o céu, estava estrelado
Vi o Deus Menino em palhas deitado
Em palhas deitado, em palhas aquecido
Filho duma rosa e dum cravo nascido "
Ou
"Pastorinhos do deserto
Correi todos vinde ver
A pobreza da lapinha
Onde Cristo quis nascer"...

Depois das vivas aos senhores da casa mais aos seus meninos gerava-se a expectativa no grupo. Olhos fitados numa janela com a luz a espreitar, era o estender de mãos A procura dum trocadito que era lançado com algumas recomendações: - olhem lá se prá próxima trazeis uma gaita mais afinada!... ou - há uma voz esganiçada que até mete medo!... ou na melhor hipóteses: - muito bem... por isso lá vão 25 tostões!...
O giro estava traçado - saímos da Igreja, vamos logo ao Sr. Abade (P.e Ramiro) O dali só vem restos de hóstias e bolachas Maria (das pequenas)... Bom -depois vamos por Vle de Suz ao Sr. Urbaninho - issoanimados com a certeza da melhor oferta... Seguimos pelos "5 merreis " - é lá-aí não que ele solta-nos os cães!... Vamos então ao Sr. Veiga, damos uma chegada ao Sr. Protazinho... e lá fazia-mos a estafeta serpenteada por entre o caminheiro carregado de ilusões e canseiras... e alguns tostões na boina. Recordo um dos Janeiros em que a noite apareceu mais cedo, escura e fustigada por forte ventania. Quis o nosso grupo encolher o caminho para fugir ao temporal que se fazia anunciar. Rápido, rápido... vamos... vamos - dás só 2 vivas epronto! Vamos... vamos... até parecíamos uns pilhas galinhas. Avança o Manei, sempre o mais fortalhaço e destemido e logo a ondulada perseguição em estreita correria. Ali para os lados da Cruz, houve uma troca de passos e num ápice surge um grito ensurdecedor do Manei seguido dum chafurdanço na presa. A sorte é que a água ficou-lhe pela cintura, mas... lá se foi a boina com algumas branquinhas!...
Mas nem tudo correu mal. Chegados à casa dos meus avós, há que acender o lume para secar o Manei. Ali mesmo por cima do espreguiceiro espreitavam uns chouricitos e farinheiras - foi mesmo com a vara de varejar o castanheiro que duma estocada vimos voar 4 chouriços... e nas brasas aqueceram o animado apetite dos cantores das janeiras... mesmo de bolsos vazios!... ... ... ...
Uns anos passados, lá fui encontrar alguns dos meus companheiros na conquista dum lugar para a "DANÇA DO MENINO".
...Tu... dás para pastor... este também dá... Ora,
guardamos este papel também de pastor para o Firmi-no que não tarda a vir do Ultramar... e ele decora-o num rápido... Então Terezinha a Dança do Menino só tem pastores?! — pergunta alguém lá do fundo. Não rapaz... também tem pastoras!... e, continuou - o Sr. Brito do Padrão será o capitão Bambalho (tenho ali uma farda que lhe vai ficar um mimo); ali o Sr. António Rei, claro, vai ser o rei Herodes; a Lucília a Rainha... o Sr. Dias dá mesmo para velho Semeão... o Sr. Albino o conde Fraim... etc... e a este rapaz coube-lhe o papel de "Príncipe ".
Aquilo é que era uma corrida para o Centro Paroquial. Papéis em punho, memorizar as entradas e as saídas, decorar aquelas páginas todas, provar as indumentárias, era uma roda-viva de entusiasmo e dedicação. Não podia ser doutra forma já que a nossa Directora/Ensaiadora/Modista... era sempre a primeira dum largo sorriso nos lábios e uma extraordinária dedicação às verdadeiras causas no empenho por fazer sair a peça na perfeição.
De facto é de ressalvar com justiça esta figura ímpar de serviço em prole da comunidade jovem e menos jovem de Penamaior. Terezinha Mota aparecia--nos como líder nos projectos em que se denotasse a fidelidade o amor às causas da cultura, do entretenimento e da paixão pela terra para as respostas duma sociedade sempre às portas da crise, por falta de espaço e tempo para um viver solidário. Foi e é de facto uma mulher de combate à qual presto a minha humilde mas sentida homenagem... e como sabe bem ainda hoje saborear o verdadeiro sentido da Páscoa quando juntamente com a minha família nos deslocamos para sua casa depois do sol posto e sentir de perto a alegria contagiante dos moços das campainhas no sorriso cansado mas resplandecente dos mordomos e do Sr. Abade a repetir pela milésima vez as saudações do ALELUIA...
Mas voltemos à "Dança do Menino"... Tudo a postos para a primeira apresentação e o nervoso miudinho nas últimas passagens pelos papeis.
O Sr. Silva experimenta o correr das cortinas oleando as roldanas que faziam cá uma chiadeira, espeta mais um galiota nos cenários, dá uma espreita-dela por uma "talista" entre tábuas descasadas de propósito e segredanos esfregando as mãos de contente: "até já há pessoal em pé ".
Encontro a um canto o Sr. Antero (que era um dos "doutores da lei") e diz-me baixinho: - olhe, isto é - letras como panelas... não sei ler nem escrever... ao menos consolo-me de olhar para elas!...
Surgem as fortes pancadas no palco... os músicos atacam com o instrumental... e... e
... Vou apenas contar este passo: - o Rei Herodes após a cena da perseguição e matança dos meninos inocentes... também morre e eu sou naturalmente coroado. Mas aquela coroa pesadíssima, a capa quase a espalhar-se pelo chão e aquele espadão enorme, parece que me davam ainda mais... intranquilidade e... medo!...
Logo a seguir tinha que me bater com Singo (o Sr. Emílio, homem na vida real de poucas falas, de semblante carregado... e até se conta que por meia dúzia de treta assapava uns borrachos a qualquer um). Bom, em plena luta... o Singo teria que cair vencido. Agora vem o mais importante da história - eu aproximo a espada do seu rosto e digo: fica-te malvado... etc. mas... o peso daquele objecto enorme foi de difícil controle e piquei-lhe levemente o pescoço, fazendo logo saltar uns pingos de sangue!... O homem dos diabos, qual papel qual quê... levanta-se, salta ao meu encontro, encosta-me o vozeirão ao ouvido sussurrando — lá fora estás feito num espantalho seu car... e voltou a cair "desmaiado"... mas de olhos fitados em mini!...
Olhem, nem terminei o verso. Saltei da cena por detrás do palco e lancei-me em fuga ainda lhe sentindo a marcha acelerada colada aos calcanhares... Num rápido atirei-me contra a porta de casa, deixando em espanto os meus avós, quando viram pela frente um "príncipe"! De túnica desajeitada, carregando numa das mãos a coroa de "rei" e na outra o espadão a rastejar pelo chão fazendo faíscas e gritando.
TRANQUEM AS PORTAS!...

Para todos os Maneis, Firminos e Lucílias, Ber-nardos e Amândios. Serafins, Terezinhas e tantas Rosas de saudade e... para ti amigo leitor UM NATAL FELIZ com Janeiras cantadas em hossanas de muita felicidade e amor.